Secretaria Municipal da Cultura

 

Secretaria Municipal:
Adriana Silva

Endereço:
Praça Alto do São Bento, s/n°
Cep 14085-600
Ribeirão Preto - SP
Fone (16) 3636-1206

gabinete@cultura.pmrp.com.br

 

 

 


Fórum Permanente de Cultura – Política Pública de Museus

Adriana Silva
Lilian Rodrigues de Oliveira Rosa

A segunda edição do Fórum Permanente de Cultura atende ao Plano Municipal de Cultura de Ribeirão Preto, que determina a sua realização como condição para o fortalecimento da sociedade civil como protagonista da Cultura no município e partícipe das tomadas de decisão do poder público. Integrado à programação da 8ª. Semana de Museus – Museus para a harmonia social – IBRAM, o fórum pretende, junto com a comunidade, discutir a política pública de museus, especialmente no que tange à missão e a organização do Museu Municipal Plínio Travassos dos Santos, do Museu do Café Francisco Schmidt e do MIS – Museu de Imagem e Som; além disso pretende debater a identidade e a gestão do Museu da Segunda Guerra Mundial “Expedicionário José Vivanco Solano" (vinculado à Secretaria Municipal da Cultura, em 1996, pela lei 737496).

Os quatro museus que serão o foco do debate do Fórum Permanente de Cultura têm em comum o fato de se caracterizarem como Museus Históricos. Nas palavras de Ulpiano Meneses, no livro Como explorar um Museu Histórico (Museu Paulista, 1992), que discutiu o museu como instrumento de afirmação e construção da memória de um determinado grupo:

“Além de evocar e celebrar o passado, um museu deve organizar-se de maneira a mostrar a sociedade como organismo vivo, sujeito a mudanças. Assim, o museu histórico contribui para o enriquecimento da consciência histórica, isto é, a percepção da vida social como produto da ação humana que a gera e transforma.”

Toda sociedade, para afirmar e reforçar sua identidade, procura construir uma memória, de preferência unificada, homogeneizada. A memória, assim, aparece como operação ideológica, formadora de imagem, representação de si próprio que reorganiza simbolicamente o universo das coisas e das relações e produz legitimações.

Desse processo participam vários instrumentos. O museu histórico é um deles. Por isso é que, tão frequentemente, tais museus giram em torno de objetos relacionados biográfica e tematicamente a fatos e figuras excepcionais do passado. Daí ser comum considerar que sua função principal é evocar e celebrar o passado.

Ora, a História, como operação do conhecimento, não apenas não se confunde com a memória, como também não se reduz ao domínio do passado e das ações e personagens extraordinárias que a povoam. Concebida como o conhecimento da dimensão temporal do homem enquanto ser social, a História tem por objetivo reconstruir e explicar a organização, funcionamento e transformação das sociedades. (MENESES, 1992, P.7).
           
Evidenciando o seu papel dinâmico, o museu histórico deve ser capaz de, além da celebração de um passado estático, representar uma determinada sociedade que guarda elementos de curta e longa duração permeados por um processo estruturado por continuidades e descontinuidades:

“Por conseqüência, se um museu quiser efetivamente ser histórico, deverá, além de evocar e celebrar o passado, também organizar-se para que uma sociedade determinada possa ser entendida tal como ela se apresenta, isto é, organismo vivo, sujeito a mudanças. Assim, o museu histórico pode contribuir para o enriquecimento da consciência histórica, que é a percepção da vida social como produto da ação humana, que a gera e transforma.” (MENESES, 1992. In: MANIGA, 1992).

Partindo do princípio que o museu se caracteriza por atuar com acervos de objetos, portanto, tendo como matéria-prima a cultura material, que é uma área muito vasta para ser documentada, é importante ressaltar que os bens que formam o acervo do museu histórico devem ser o ponto de partida para uma programação cultural e educacional e para pesquisa.
Dentro das múltiplas funções de um museu, a que se relaciona ao conhecimento é a que se constituí como a sua característica básica. Dentro da instituição museológica, o bem cultural não guarda mais apenas sua funcionalidade original, mas também se transforma em documento, ou seja, um objeto que tem como papel principal fornecer informações. Dessa forma, uma xícara agregada a um museu, não é mais um artefato de beber chá ou café. Na coleção, a xícara passa a ser um objeto que informa sobre o hábito de beber, as formas de feitura da cerâmica, de pintura, etc. “Naturalmente, esse esvaziamento do valor de uso, em benefício do valor documental não é o mesmo para todo tipo de objeto. Ele é reduzido nos museus de arte” (MENESES, 1992, P.4).

Dentre as várias tipologias correntes de museus, o que viria a ser um museu histórico? Ulpiano T Bezerra de Meneses responde:

[...] Os critérios, para delimitação dos campos de atuação e acervos são disparatados: num museu da arte, uma tela é documento plástico (mas sem considerar que a construção da visualidade integra a realidade histórica). Já no museu histórico, a mesma tela seria valorizada pelo tema, como documento iconográfico (mas ignorando a historicidade da matéria plástica).

Assim, o que se costuma ver como o critério maior para a identificação a priori de um objeto histórico é sua vinculação biográfica ou temática a um feito ou figura excepcionais do passado, normalmente heróis vencedores ou, quando vencidos, considerados moralmente superiores (como na Revolução de 32).

Nisso tudo há confusão cuja raiz está na tentativa de classificar objetos conforme categorias apriorísticas estanques e unívocas de significação documental, fragmentando o conhecimento: objetos artísticos, objetos históricos, objetos tecnológicos, folclóricos, etc., como se as significações fossem geradas pelos próprios objetos e não pela sociedade.

Ora, as significações das coisas materiais são sempre atribuídas. Os objetos físicos, em si, só têm propriedades imanentes de natureza físico-química como forma, dimensão, peso, textura, cor, etc. Tais propriedades podem ser sim, mobilizadas como vetores de significação e valor que os grupos sociais produzem e constantemente modificam.

Por isso, conviria conceber um museu histórico, não como a instituição voltada para os objetos históricos, mas para os problemas históricos. Assim, em última instância, seriam históricos os objetos, de qualquer natureza ou categoria, capazes de permitir a formulação e o encaminhamento de problemas históricos (e por problemas históricos se deveriam entender aquelas propostas de articulação de fenômenos que permitem conhecer a estruturação, funcionamento e, sobretudo, a mudança de uma sociedade). [grifo nosso] (MENESES, 1992, P.4, 5)

Da premissa que é fundamental compreender o processo histórico, resulta a compreensão que não há mais sentido na história panorâmica, tanto quanto não há para o museu enciclopédico ou o gabinete de curiosidades, quando estes não atendem às transformações da natureza do conhecimento. Para fomentar o aprofundamento da percepção desses processos históricos, é essencial a realização de recortes temporais, geográficos e temáticos que garantam a visibilidade e eficiência da unidade museológica (MENESES, 1992).

Intimamente influenciadas pela percepção que cada sociedade tem do seu próprio passado, as referências culturais de cada grupo guardam em si várias camadas de significados, produzidas por práticas sociais resultantes das articulações internas e externas entre as várias dimensões sociais. Essas articulações ocorrem a partir de uma produção simbólica que pode ou não ser compartilhada por outros grupos, definidos no espaço e no tempo.

Constantemente obrigado a encarar a finitude da sua própria existência, o homem desenvolve um mecanismo que lhe é peculiar: a necessidade de preservar parte do que lhe confere humanidade: sua produção cultural. Ao colocar em prática a sua intrínseca condição de único ser que tem consciência de passado, presente e futuro, o homem cria e recria suas experiências e expectativas (KOSELLECK, 2006).

Dessa forma, observa-se que “de fato, o que sobrevive não é o conjunto daquilo que existiu no passado”, mas o resultado das escolhas feitas pelas diferentes formas de poder que “operam no desenvolvimento temporal” (LE GOFF, 1982, p.103). A partir do seu tempo, o ser humano define os critérios de escolha dos seus testemunhos, sejam eles materiais ou imateriais, que serão as suas referências culturais responsáveis pela sua identificação e diferenciação em relação aos outros grupos.

Nesse caminho, no que se referem aos museus com instituições de preservação, organização e comunicação, cabe à sociedade e ao poder público, a reflexão sobre como associar a evocação e a celebração da memória, que necessariamente devem estar presentes num museu histórico não como objetivo, mas como objeto de conhecimento, com a compreensão da construção, dos usos e ressignificações das memórias.

Referências Bibliográficas

BOURDIEU, Pierre F. O poder simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1992.
KOSELLECK, R. Futuro Passado. Contribuição à semântica dos tempos históricos. Tradução Wilma Patrícia Maas e Carlos Almeida Pereira. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. Puc-Rio, 2006.
LE GOFF, J. História e Memória. Tradução Ruy Oliveira. Lisboa: Edições 70, 1982.
MENESES, Ulpiano T. Bezerra de. Museus Históricos: da celebração à consciência histórica. In: MANIGA, Estelamar P. (org.). Como explorar um museu histórico. Museu Paulista: 1992.
ROSA, Lílian Rodrigues de Oliveira; RIBEIRO, Michelle C. de Castro.                 Institucionalização da memória: monumentos em praça pública de Ribeirão Preto, SP. 2010. No prelo.

 

 

Prefeitura Municipal de Ribeirão Preto - Praça Barão do Rio Branco, s/nº - Centro - CEP 14010-140 - Fone (16) 3977-9000
Desenvolvido por Coderp (Cia. de Desenvolvimento Econômico de Ribeirão Preto) e Coordenadoria de Comunicação Social

 

 

 

Fala Cidadão

Mapa do Portal